“Você atravessando aquela rua vestida de negro,
E eu te esperando em frente a um certo Bar Leblon”
Olhou para o pulso buscando saber as horas, mas lembrou que não usava mais relógio. “O celular me mal acostumou”, pensou. Estava ansioso, cogitou atrasar-se de propósito para não ser ele esperando, e sim, ela. Temia não mascarar seu medo quando a visse. Não importava o quanto ele sabia blefar nos jogos da vida, tinha consciência que no minuto que ela olhasse em seus olhos, ele não conseguiria esconder mais nenhuma verdade sobre si próprio.
“Que dia lindo”, pensou ao olhar o céu. Procurou o maço de cigarros no bolso da bermuda, e se distraiu por um momento ao acender aquele que seria uma companhia bem-vinda. Levantou a cabeça, soltando a fumaça pela boca, e a viu. Pensou estar em um filme, em que o mundo pára quando o mocinho vê a mocinha. Imaginou qual seria a trilha sonora de sua história com ela. Notou que o vestido que ela usava foi um presente dele. “Significaria essa roupa algo? Por que ela usaria justamente esse vestido? Talvez seja um sinal.”
“Você se aproximando e eu morrendo de medo
Ali, bem mesmo em frente a um certo Bar Leblon”
Voltou a si. Sabia que ela não o olhava mais do mesmo jeito. “A ignorância realmente é uma dádiva”. Lembrou que mais de uma amiga dela o aconselhou a seguir em frente. “Se ela sentisse ainda algo, nenhuma amiga diria isso”. Buscou mais um cigarro em seu bolso, mas suas mãos não conseguiam parar de tremer. Lembrou dos conselhos dos amigos: “Seja indiferente”, disse um. “Não demonstre nervosismo”, disse outro. “O pior tipo de mulher é aquela que sabe que o homem está em suas mãos.”
“Quando eu atravessava aquela rua morria de medo De ver o teu sorriso e começar um velho sonho bom”
“Espero que eu olhe para ele e não sinta nada”.Combinou de encontrá-lo sob os protestos da família, das amigas, e notou até um olhar de reprovação de seu cachorro. “A cara do erro. Por que será que as pessoas insistem em testar seus limites? Um bom assunto para discutir na terapia.” Tratou de relembrar todas as coisas que irritavam nele, o hábito de interrompê-la quando ela falava, de buscar soluções para questões que ela não queria solucionar, a forma como ele criticava todas as músicas que ela gostava. Pensou em como ele já não era mais atencioso no final. Talvez tenha parado de ser no meio. Lembrava apenas dessa qualidade no começo. “Ah, o começo”. Percebeu que o sinal estava aberto para os pedestres, seguiu em frente, e o viu. Se fosse uma cena de filme, tocaria nesse momento a música deles. A única que ela gostava e que ele nunca criticou.
“E o sonho, fatalmente, viraria pesadelo Ali, bem mesmo em frente a um certo Bar Leblon” “Não foi uma boa idéia”.
No final, comparava a relação deles com o hábito de fumar. Disse uma vez para uma amiga: “Você sabe que faz mal para a saúde, as pessoas que a amam lhe aconselham a parar, mas seja por hábito ou dependência, você não consegue. Falta coragem para deixar aquele que faz companhia quando se está sozinha”. Os melhores cigarros eram aqueles que ela fumava quando esperava alguém. Sentia-se mais forte, mais segura. O que ela sabia, mas optava ignorar, era que mesmo com ele, ou com o cigarro, ela continuava sozinha esperando algo.
“Vamos entrar? Não tenho tempo. O que é que houve? O que é que há?“
Disseram tudo que era de esperado ao reencontrar alguém. “Oi, como está? E sua mãe? E o trabalho? Você parece bem. Você também. E esse velho bar de sempre? Viu que pintaram a parede? Essa região está mudando. Jura? Não freqüento mais esse bairro. Mesmo? Por quê?” Um olhar e silêncio. Existem perguntas que deveriam apenas ficar na mente. Principalmente quando se sabe as respostas. Ela prontificou-se a entregar a sacola que trazia. Coisas que ele havia deixado em sua casa. Algumas camisetas, uma cueca, um filme. Ele retribuiu o gesto e devolveu o que era dela, um par de brincos, presilhas para o cabelo, e uma camiseta que era dele, mas que ela usou tanto para dormir que virou dela. Hesitou, mas finalmente a chamou para tomar algo. E teve dificuldade de ficar em pé, muito mais agir com indiferença quando ela recusou o convite. Não se conteve. Queria justificativas, tempo, alguma indicativa que aquilo era difícil para ela. “Como pode estar tão fria? Será que já me esqueceu? Talvez vá encontrar outra pessoa.”
“O que é que houve meu amor, Você cortou os seus cabelos”
Ele : Por que não fica? Ela: Não acho uma boa idéia. Ele: Pode falar que você tem outro compromisso. Ela: Não é isso, só não acho uma boa idéia. Ele: Me explique o motivo. Não está com saudade? Ela: Estou. Ele: Por quê está tão seca? Ela: Acho melhor eu ir embora. Foi bom te ver, mesmo. Nos falamos.Ele: Não acredito que você vai fazer isso. É assim que quer agir?
Mais uma vez, silêncio. Ele insistiu em perguntar aquilo que já sabia. Como se talvez perguntando, a resposta pudesse ser diferente.
“Foi a tesoura do desejo Desejo mesmo de mudar’
Ela não falou mais nada. Apenas lhe deu um beijo no rosto. O ato mais cruel que ela lembrava de ter cometido. Seguiu andando, acendeu o cigarro e fez de tudo para não chorar. Ele não falou mais nada. Suportou o beijo que ela lhe deu, no rosto, mesmo com vontade de afastá-la . De xingá-la. Não lembrava a última vez que sentiu tanta raiva. E quando viu que ela estava longe, o ódio transformou-se em tristeza, e esta em lágrimas.
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ResponderExcluirquanto orguuuuulho!
ResponderExcluirmovi.mente, gata! melhor remédio para curar a dor!
adoro que tem um pouquinho de mim aqui!
beijos mil,
manuca