Ela estava sentada, escutando as histórias dos amigos que há muito não encontrava, mas permanecia com a cabeça em outro lugar, um tanto quanto desconcentrada. Olhava para os lados quase como se estivesse procurando alguém, mesmo sem saber exatamente quem gostaria de encontrar. Em um desses olhares, jogados para nenhum lugar especifico, ela o encontrou. Ou ele a encontrou. Não se sabe exatamente.
Reconheceram-se, trocaram sorrisos, daqueles sinceros, de quem se dá conta que tudo poderia mudar a partir dali. Ela perguntou se ele queria sentar em sua mesa, mesmo que fosse por um breve momento, e ele, prontamente, aceitou. Conversaram como nunca haviam feito, como nunca tiveram oportunidade. Esbarravam um no outro com uma certa freqüência em aniversários de pessoas em comum mas ainda não tinham tido a oportunidade de se conhecer realmente. Aquela noite se apresentou com uma chance para os dois. Ela se sentia confortável com ele, com desejo de contar mais sobre sua vida, de compartilhar o que se passava com ela, de trazê-lo de alguma forma para o seu mundo. Ele escutava pacientemente o que ela lhe dizia, perguntando detalhes sobre qualquer coisa que saía da boca da menina, atento aos devaneios da mente dela. Ela se encantou com tanta atenção, com a calma da voz dele, com o jeito que ele tinha de transformar qualquer angústia em paz.
Ele tinha que ir embora. Ela não queria deixá-lo ir mas não sabia como pedir para que ele ficasse. Ainda assim foi dormir tranqüila, com a sensação de que tudo ficaria bem, com sua fé restabelecida de que o mundo é exatamente como deveria ser.
Ficaram meses sem se encontrar. Ocasionalmente a imagem dele surgia em sua mente, lhe alegrava o dia e ela seguia com sua vida, assim como ele seguia a dele.
Ela estava atrasada novamente para um dos muitos aniversários que sempre tinha que ir. Chegou afoita no local e cumprimentou de bom grado aqueles que já estavam presentes. Escutou novamente os amigos que há tempos não encontrava, e de vez em quando fazia alguma colocação sobre o assunto que estava sendo discutido na mesa. Decidiu ir embora, pagou sua parte da conta e levantou-se para partir. Foi quando ele entrou. Conversaram por alguns instantes e ela, de repente, não conseguia mais se mover. Sentia que precisava ficar ali, sabia que ele tinha algo para acrescentá-la, mesmo não sabendo o que era. Conversaram durante horas, com outras pessoas presentes, mas com a sensação de que estavam sós. Olhavam um para o outro de uma forma cúmplice a cada palavra que trocavam. Ele comentou que havia voltado o namoro. Ela permaneceu forte e não permitiu que a decepção contaminasse a sua expressão.
Ele a levou para casa, conversaram sobre música, sobre a vida, sobre qualquer tema que surgisse. Por vezes, os olhos dela permaneciam por mais tempo que deveriam nos olhos dele. Ele retribuía, inebriado pela sensação de que ela também lhe acrescentaria em algo, mesmo ele não sabendo exatamente o porque daquilo tudo. Despediram-se. Um beijo no rosto, nem rápido, nem devagar, mas o tempo exato para passar o carinho que ambos estavam sentindo pelo outro.
Acordou no dia seguinte feliz, como se soubesse que a história não terminaria ali, calma pela consciência de que tudo tem seu tempo, e que o deles chegaria no momento certo.
Recebeu um convite para uma apresentação dele. Imediatamente aceitou o convite feito por um amigo em comum dos dois. Queria ir para prestigiá-lo mais do que propriamente para encontrá-lo. Queria escutá-lo para retribuir todas as vezes que ele havia a escutado. Queria fazer ele feliz com sua presença. Chegou tímida, como sempre atrasada, e sentou em uma cadeira esperando a vez dele se apresentar. Esperou que os outros lhe dessem parabéns. Na sua vez deu um abraço acanhado nele, enxergando o estado de surpresa do rosto dele com a sua presença.
Parecia que surpresa era a palavra que definia o caminho traçado para, e por, eles. Foi exatamente assim, surpresa, que ela ficou quando em uma sexta-feira qualquer, descobriu que ele estava só novamente. Pensou no dia que se encontraram sem querer e na forma como ele a tratava. Não queria deixar os próximos acontecimentos nas mãos dos outros ou novamente do acaso. E não precisou. Foi surpreendida mais uma vez, ao receber uma ligação dele em uma segunda-feira, convidando-a para tomar algo.
Combinaram de se encontrar, chegaram ao mesmo tempo no local escolhido, e sentaram perto do outro. Ela percebeu, logo nos primeiros instantes, o quanto ele a deixava confortável. Ele pensou em como seria bom passar o resto da noite olhando para o rosto dela. Tudo parecia estar a favor daquele encontro. Sentiam-se protagonistas de um filme. Pensavam em tudo que havia acontecido para chegarem naquele momento. Registraram aquela noite com um desenho feito por um artista de rua, que perambulava pelos bares, à procura de um casal que lhe desse dinheiro em troca de seu trabalho. Mais do que marcadas em um papel, àquelas horas ficariam gravadas na mente dos dois, como uma promessa de que tudo que estava por vir seria ainda melhor. E foi. A cada encontro era um pouco mais de conhecimento sobre o outro e muito mais de entrega. Ela descobriu o quanto ele era animado. Ele descobriu o quanto ela era carinhosa. E continuaram se descobrindo, com uma vontade imensa de entender a fundo os personagens da história que estavam vivendo, mas sem pressa de chegar ao final dela.
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"Parecia que surpresa era a palavra que definia o caminho traçado para, e por, eles."
ResponderExcluirÉ por isso que não precisamos temer, nem prever nada! Quer sentimento melhor do que o causado pela surpresa?